sexta-feira, janeiro 26, 2007

Capítulo 3 - Agora Sou Estagiário, O Que Eu Faço?

Você conquistou uma vitória importante na sua vida. Muitos sonham com um estágio e continuam sonhando (como é bom sonhar que se está mastigando pedras, não?). Nem todos conseguem um estágio na empresa que tanto desejam. Mas você conseguiu, não está preocupado com isso, está?
Muitos mantêm a dúvida do título ("agora sou estagiário, o que eu faço?" - estagiário tem memória curta, repeti de propósito) na cabeça por pouco tempo, logo se encontram como estagiários. Outros são efetivados (ou demitidos) e nunca sentiram o prazer (prazer???) de serem estagiários (conta outra, vai), ou melhor, de se sentirem estagiários.

A primeira coisa é ter na cabeça que você é estagiário, portanto, muitos irão dizer várias coisas e, todas devem ser bem analisadas. A primeira e mais importante lei do estagiário é não deixar que o estágio atrapalhe os estudos. Não são poucos os que sofrem desse mal. Seu chefe vai para casa depois do expediente, ele tem "vida durante a semana". A vontade de fazer como ele é imensa, não é mesmo? Porém, seu chefe só faz isso porque um dia ele foi estagiário (talvez), e se dedicou aos estudos. Portanto, quanto mais rápidos forem terminados os estudos, mais breve será o começo da sua "vida durante a semana". Estagiário não tem tempo para nada, acostume-se a isso.

A segunda lei é fazer o seu trabalho, e fazer bem-feito. E não adianta fazer sem mostrar que fez. Sempre mostre serviço, das coisas mais simples às mais complexas.

Estagiário tem direito ao erro, desde que seja um erro de estagiário. Aquele estagiário que age como gerente (acredite, existe) comete erros de gerente. Não tome nenhuma decisão sozinho, sempre pergunte a alguém. Mesmo que você saiba, pergunte! Estagiários não precisam saber tudo e sim aprender tudo. Uma decisão certa pode te dar mais visibilidade, porém, uma decisão errada complica você, seu chefe, seu gerente, etc. É uma reação em cadeia. Não tomar decisões sozinho constitui a terceira lei.

A quarta lei é ser pontual, e por mais óbvio que pareça, muitos ignoram essa lição e depois se espantam por serem demitidos ou estarem no terceiro ano de estágio (estagiário sênior). Chegue antes da hora, não demore no almoço (a menos que almoce com seu chefe), não atrase um trabalho que te for solicitado. Se você for 100% pontual, não receberá elogios por isso, porém, atrase 10 minutos e sofra as consequências. Para um estagiário, o silêncio do seu chefe para com seus atos conta como elogio. E não se espante, seu chefe irá se atrasar, porém, finja que você não viu nada e não sabe de nada.

Constitui a quinta lei não prometer o que não se pode cumprir. Se não souber fazer um trabalho, pergunte quantas vezes for necessário. Isso não te faz incapacitado, te faz dedicado com a integridade dos trabalhos da empresa. Se você não fosse capaz, teria outro em seu lugar, não é mesmo? Parece óbvio, mas nem todos o fazem.

A sexta lei é "sim, senhor" e "não, senhor". Quando for repreendido, mantenha a calma e abaixe a cabeça, mesmo que você estiver certo. Afinal, estagiário nunca tem razão. Se seu chefe pedir que você trabalhe o tempo todo mas não te diz o que fazer, abaixe a orelha, bote o rabo entre as pernas e trabalhe, seja lá como for. Finja se for preciso. Uma hora ele irá perceber que não te passou nada para fazer. Tenha uma coisa em mente, mostrar serviço não é trabalhar o tempo todo sem parar se não houver o que fazer. Mostrar serviço é fazer o que tem que ser feito quando há o que ser feito e fazer com precisão e bom desempenho. Feliz do estagiário que possui um chefe conhecedor dessa máxima.

A sétima e última lei do estagiário é falar. Falar a coisa certa na hora certa e no lugar certo. Desde a escola você sabe que quem fica sempre em silêncio o tempo todo passa despercebido, não é? E você nunca vai desejar passar despercebido na empresa.

Essas são as sete leis que levam um estagiário ao sucesso. O domínio e a aplicação desses sete fatores leva o estagiário à glória. O estagiário que as desconhece está fadado à ruína. Que ponham outro em seu lugar! (viva Sun Tzu!)

Como eu disse, muitos dirão várias coisas. A análise deve ser cuidadosa.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Capítulo 2 - O Primeiro Dia

Depois de passar pelo desesperador momento da entrevista, é chegada a hora da verdade. O primeiro dia de estágio.
O primeiro dia é tão marcante e confuso quanto cada estréia na vida, incluindo a iniciação sexual. Ninguém nasce sabendo de tudo, não é mesmo? Off-post: Eu acredito que bebês nascem sabendo operar todo e qualquer equipamento eletrônico, aperfeiçoam essa habilidade até terem discernimento de entender o manual de instruções. A partir daí, essa habilidade é perdida da noite para o dia. Privilegiados talvez sejam aqueles que nunca entenderam um manual na vida. Daí se explica a genialidade. Gênios nunca estudam como nós, eles nunca entendem os livros, por isso mantêm sua habilidade fetal ativa, e se tornam, ironicamente, geniais. Seriam então todos os bebês geniais?
Apesar disso, bebês não sabem ser estagiários. Ninguém sabe ser estagiário. Muitos nascem e morrem sem terem sabido ser estagiário.

O primeiro dia de estágio é muito importante, o (agora) estagiário se apronta cuidadosamente, ostentando seu traje de trabalho. Ainda não há crachá, sequer bolsa ou benefícios. Mas há a sensação de alívio por ter superado a entrevista e as burocracias para assinar o contrato. Ah, o contrato, 6 meses ou 1 ano de puro prazer, puro aprendizado, nada mais lindo.
O estagiário chega ao local de trabalho, é lindo, tudo é lindo, a máquina de café e a copa são lindas. Viva a laminha! Enfim, no primeiro dia você irá gastar a sua primeira hora de estagiário sendo apresentado a todos, sempre com um sorriso idiota no rosto. Aí você começa a perceber que o sonho era mais bonito que a realidade. Você terá a descrição das suas funções e será deixado lá, inerte, talvez por algumas horas. Não reclame! As empresas quase nunca estão prontas para a sua chegada. Relaxe.
Uma hora bate a vontade de ir ao banheiro ou beber água (você não tem confiança suficiente para fazer A laminha sozinho). É duro, é MUITO DURO resistir a não pedir ao chefe permissão para suas necessidades corporais. Porém, você VAI pedir e o chefe vai rir e dizer que você não precisa pedir. Disfarce e explique que você não sabe o caminho.
Resista à vontade de entrar no MSN, pelo menos até ver que metade da empresa entra descaradamente. Melhor ainda se o seu chefe usar. Sim, o Orkut está mesmo bloqueado.
Chegada a hora do almoço (se houver), almoce com o seu chefe. Talvez ele seja legal e pague o seu almoço, mas nem sempre espere por isso. Sair pra almoçar com algum amigo ou conhecido pode pegar mal, tornar você "mais um" estagiário . Estagiários que trabalham (?) em bando têm medo de almoçar com o chefe/gerente, é pura bobeira. Tem oportunidade melhor para mostrar quem você é do que numa conversa de almoço?
O segundo turno costuma ser mais sonolento, e o marasmo do primeiro dia vai te fazer olhar o relógio sem parar. Seja discreto. Para passar o tempo, vá ao banheiro, beba água e café. Fazer tudo junto gastaria um total de 6 minutos. Cada um separado gasta 4, 2 e 3 minutos respectivamente. Qual é o melhor modo de passar o tempo?
Chegada a hora da saída, aquele alívio bate no seu corpo, dê uns 2 minutos da hora de sair e notifique seu chefe da saída.

Parabéns, você sobreviveu ao primeiro dia.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Capítulo 1 - A Entrevista

É claro que a vida do estagiário não começa na entrevista. Começa quando ele entra na faculdade (escola) e ouve a primeira pessoa dizer que arrumou um estágio. Estagiar é o máximo, é sentir o perfume das rosas em um lixão, é pisar em nuvens num campo de espinhos.
Aquele cara (menina) que tem um estágio se torna um ídolo. Ele (a) conta várias histórias que fascinam e atraem os amigos para a vida de estagiário. E também fala dos salários, dos benefícios, das máquinas de café e tudo mais. Aí o jovem mancebo ouvinte se encanta, prepara um CV (não é comando vermelho) todo animado e fica esperando pintar uma vaga naquela grande empresa.
No começo ele se ilude com as vagas que aparecem, pedem coisas que ele nunca viu, umas chegam ao cúmulo de pedir experiência. Mas aí o Sol volta a brilhar, surge a vaga NAQUELA empresa, o conscrito manda o CV, que é selecionado. Então o conscrito é chamado para a ENTREVISTA, a succubus da vida do candidado a estagiário.
Nunca na cabeça do candidato surgiram tantas perguntas sem resposta. Não é como no vestibular, agora a prova é cabulosa, não tem o que estudar, o jovem candidato estará frente a frente com muitos outros jovens candidatos tão nervosos e desinformados quanto ele. Bem, vamos por partes.

1. O dia da chamada

O telefone toca, número restrito, o coração vai a mil. Ao atender, aquela voz deliciosa de "menina do RH" enche o coração do jovem candidato. Não pelo frescor e a maciez da voz e sim pelas palavras que estão sendo ditas. Entrevista com fulana, dia tal, local X, hora Y. O candidato tem várias perguntas, inclusive o nome de quem ligou, mas ele nunca lembra na hora.

2. O dia da entrevista

O candidato acorda cedo, aliás, ele sequer dormiu. Faz de tudo para sair cedo, mas algo sempre dá errado. Porém, a maioria consegue chegar na hora. Existem os atrasildos por natureza, esses chegam atrasados mesmo, e vão sendo eliminados. Chegar tarde é fatal, portanto, consiga uma boa desculpa. Se o despertador não tocar, invente algo como "o cachorro comeu meu despertador", pelo menos não será uma desculpa manjada.
Se o atraso for completamente inevitável, vale ligar para a "menina do RH" e notificar o seu atraso (com a devida desculpa). Porém, procure, mesmo com o atraso, chegar antes dos candidatos já estarem na sala de prova.

3. Os outros candidatos

Ao chegar no local da entrevista, o candidato não presta atenção em nada além dos outros candidatos. Se pedissem ao candidado para voltar ali sozinho outro dia, ele com certeza iria se perder. Claro que existem raras exceções à regra. Não trato exceções aqui.
Os outros candidatos são os inimigos, inimigos mortais! Geralmente no primeiro dia são entrevistados um grupo de 6 pessoas. Nesses 6, podemos encontrar o tímido, o mal-vestido, o confiante, o desolado, o arrumadinho e o extremamente sociável. Este último é o sujeito mais odiado da sala de entrevista, pois ele conhece metade da empresa, cumprimenta a tia da limpeza e dá logo a impressão de que vai passar por Q.I. (suponho que o candidato saiba o que é Q.I.).
Desses 6, não há um tipo a ser admirado, cada um possui seus contras (só contras), porém, eles não sabem que estão errados. Haveria um sétimo tipo, mas é aquele que se atrasou no tópico anterior e disse que alienígenas fecharam a rua dele.
Candidatos adoram se entreolhar, e criam tipos para os outros. Você ao estar em uma entrevista vai dizer "não me encaixo em nenhum tipo daqueles 6!", grande balela! Ninguém diz que se encaixa em um dos tipos, mas os outros dizem. A dica é ignorar os outros, se concentrar em outra coisa, imagine-se desfilando com seu crachá pelos corredores da empresa, indo na copa tomar uma laminha (laminha: bebida achocolatada de estagiário em que a concentração de chocolate em pó excede em MUITO a quantidade de leite e água quente), olhando outros que estão na situação de candidato, etc. Sinta-se um estagiário, sinta um alívio por já ter passado naquilo tudo.
Só lembre-se de ir quando a "menina do RH" chamar os candidatos.

4. A prova

A prova nunca é difícil, é apenas tudo o que você já viu e tudo o que você sabe. Sério! Nada mais do que isso. Se você estudou para a prova...bem...isso não fará a menor diferença.
Provas de raciocínio lógico são cabulosas demais. Na folha 1, perguntam se você é sincero, na folha 283479821, perguntam novamente se você é sincero, mas com outras palavras. Portanto, seja sincero!

5. A "menina do RH"

Duas coisas: ela é linda e leu todos os livros existentes sobre expressões corporais. Se você leu pelo menos um desses livros (e entendeu), você está em vantagem.
Todo cuidado é pouco com suas expressões. As perguntas que ela faz não possuem duplo sentido, elas são objetivas e querem a verdade do candidato. Mas muitas vezes o candidato se sente envolvido e procura "mostrar serviço", é o fim do candidato.
As "meninas do RH" são sempre simpáticas e, não importa o que você falar, elas farão as mesmas caras (aquele sorrisinho e aquela cara de "hum, muito bom"), mas suas mãos e pés não mentem. Vire o jogo! Coloque as mãos da "menina do RH" com as palmas para cima, assim ela está mais vulnerável às investidas maliciosas do candidato. Como isso? Seja você, imagine-a sua conhecida de infância (resista àquelas táticas fajutas de imaginar a "menina do RH" nua na sua frente), aquela que você nunca teve como amiga e agora é a chance. Conquiste-a. Encante-a. Assim ficará fácil dominá-la.
Dominando a "menina do RH", suas chances de passar por ela com sucesso são de 99%.
E o 1%? Fica para o caso de o candidato não resistir e pedir o telefone da "menina do RH" ao fim da entrevista.
Se o sucesso for confirmado, ao fim a "menina do RH" irá dizer: "Essa entrevista foi só para saber se você tem o perfil da empresa, e você tem, agora vamos marcar a entrevista com o gerente."
OBS: Use e abuse do Orkut dela para descobrir o que ela gosta. Qualquer outra rede de relacionamentos é válida. MySpace inclusive. Encontrar na internet um vídeo da "menina do RH" dançando bêbada em uma festa pode facilitar e MUITO a sua investida.
OBS2: NUNCA, JAMAIS, EM HIPÓTESE ALGUMA ouse adicioná-la como amiga.

6. Entrevista com o gerente

Aqui é aonde você deve mostrar serviço. O gerente não está preocupado com a posição do seu queixo ao falar e sim com a sua utilidade na empresa.
O jovem mancebo jamais deve se esquecer de olhar sempre nos olhos do gerente ao falar. Demonstra sinceridade. O gerente não morde!
Ser sincero, mostrar a sua utilidade e ser objetivo em suas palavras é o que leva o candidado a passar pelo gerente e começar sua "Vida de Estagiário".

Assim acaba a fase das entrevistas. O guia acima serve também para as dúvidas sobre dinâmicas, trajes, provas práticas, etc.

Que venha o primeiro dia de estágio.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Introdução

Meu objetivo era escrever um livro. Era. Era por dois motivos: 1. Escrever um livro demora, é chato, e com certeza quando eu terminasse de escrever, eu não seria mais estagiário. 2. Caso o livro ficasse pronto, encontrar uma editora seria meio complicado, e eu não tenho tempo para complicações. Portanto, o que era pra ser um livro "Estagiário, eu?", virou um blog "Estagiário, eu?", e, claro, é óbvio que existem milhares de blogs (e talvez livros) que tratem do mesmo assunto. (O nome era para ser "Vida de Estagiário", mas um tal de Allan Sieber pensou nisso antes e está enriquecendo com a idéia)

Antes de continuar perdendo seu tem...quero dizer, lendo isso aqui, saiba que eu sei que existem vários tipos de estagiário. Estagiário de nível médio, nível superior, estagiário de Direito, de Engenharia, de Informática, etc. Eu fui (sou) estagiário de uma empresa multinacional, mas não escrevo para os estagiários de empresas multinacionais, escrevo para todos, desde que esse conjunto universo deseje ler o que eu escrevo.

Estagiário não tem salário, tem bolsa. E jamais faça planos com a sua bolsa, ela nunca irá realizar os seus desejos e sempre irá sobrar mês no final da bolsa. Seja ela qual for. Já ouvi falar de bolsas de R$ 150 a R$ 1.500, não importa, quanto mais um estagiário ganha, mais ele gasta. Se estagiário fosse dono de suas finanças, controlasse seus ímpetos, segurasse sua ganância, não seria estagiário. E estagiário é desinformado por natureza, porém, pensam que sabem de tudo. Na faculdade ou no colégio, todos querem ser estagiários de uma empresa da moda. E se não estão estagiando, sonham em ser estagiários, ostentar o crachá, dizer para o mundo que estão estagiando na empresa X. Quando entram na empresa X e descobrem que colegas da faculdade não são mais estagiários e sim funcionários da empresa X, eles passam a esconder o crachá, esconder o cargo, etc. Coisa de estagiário.

Estagiário é o sujeito mais confuso do mundo. Sonha com a contratação mas não sabe quando ela vai acontecer. Acha que sabe o que está fazendo mas sempre está fazendo errado. Quando trabalha no meio de outros estagiários se sente o melhor (apesar de estar fazendo errado) estagiário, porém, longe de outros da mesma espécie, se sente um verme. Mas um verme comilão, que come a informação passada pelos chefes para se tornar um grande ver...uma grande borboleta (grande borboleta foi f ...).

Estagiários sabem de tudo que acontece na empresa. Sabem os salários de cada cargo, de cada superior, etc. Sabem tudo sobre benefícios, sobre treinamentos, etc. Porém, suas informações nunca são fundamentadas, pois partem da boca de outros estagiários, e assim, os estagiários criam um círculo de fofocas maior do que o próprio Orkut (o criador do Orkut) poderia imaginar que pudesse existir. E quando os estagiários se juntam com outros estagiários de outras empresas, se torna um círculo internacional de fofocas, ou seja, sempre que você notificar um noticiário que relata a quebra de uma empresa, pode ter a absoluta certeza que a culpa foi do globo de fofocas criado por um grupo de estagiários.

Estagiários adoram se sentir não-estagiários em uma reunião, por exemplo. Mas adoram dizer que são estagiários quando uma m... acontece. Estagiários gostam de chefes que contam tudo para o estagiário, gostam de chefes que integrem o estagiário do trabalho e gostam de chefes que tratem o estagiário como um funcionário, exceto na hora de passar trabalho complicado.

Assim começa o "Estagiário, eu?".